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Estava assistindo um filme peculiar, chamado Bunraku. Ele é uma história razoavelmente familiar, contada de uma maneira baseada no que primeiro me parecia quadrinhos, mas não exatamente e , ao investigar, se provou não ser. A direção de arte do filme é baseada na tradição homônima (文楽) japonesa, que é uma espécie de teatro de fantoches. O visual é bastante estilizado, e tenho quase certeza que os diálogos foram tirados de um sonho que tive uma vez mas não lembro mais. O que me levou a devanear sobre isso: sonhos perdidos.

É uma noção incômoda, como uma música que soa similar a algo que você conhece intimamente, mas fundamentalmente dissonante aos seus ouvidos. Não consigo evitar o pensamento de que é como esquecer parte do que se foi, tanto um passado abandonado quanto um abandono de si passado.

E, no entanto, hão aqueles sonhos que não passam, não mudam, e que são tão difíceis visualizar quanto aqueles que não são mais carregados: tão inefáveis quanto o cheiro de um primeiro amor, ou o som de um coração partido às 3:42am.

Inesquecíveis, mesmo que nunca tenham sido como você se lembra deles.

A Christmas Miracle

Publicado: dezembro 25, 2010 em real life, sleep deprivation

Não é um evento muito comum, mas não sei o que dizer. Decidi escrever para distrair-me dos acontecimentos ao meu redor. Não queria fazer mistério, mas sinto que tensão é a força da boa escrita e embora a minha ainda precise de trabalho para chegar lá, algumas boas práticas tem que ser adotadas desde cedo.

Na verdade não sei se é cedo. Talvez seja cedo para certas coisas, como aprender a escrever, e tarde para outras, como recuperar tempo desperdiçado ou idéias despedaçadas. Hoje, o calor inconfundível de Porto Alegre me manteve acordado por horas durante a madrugada e após uma ou duas delas de sono o telefone insistiu em tocar. Despertado e contrariado tomei o aparelho em mãos e li um número que não me era familiar, adicionando suspense à ligação. Do outro lado da linha qualquer coisa poderia estar a espera: uma notificação de que o apocalipse zumbítico finalmente começou e que era hora de levantar armas como sempre imaginamos que faríamos; ou quem sabe um policial preso em um prédio dominado por ladrões passando-se por terroristas que ligou para meu número ao acaso e precisa que eu ajude-o a salvar as pessoas tomadas como reféns; ou ainda mais interessante, algúem me ligando e dizendo que nunca mais precisaria trabalhar em minha vida, pois dinheiro seria depositado regularmente em minha conta bancária simplesmente porque sim.

Mas o que estava do outro lado era uma voz forte e antiga, formando palavras que forçaram-se sobre meu estado vazio de espírito e  exerceram poder irresistível sobre mim. A voz dizia, não nestas palavras:

“Thiago, não irás jogar hoje. Tua mãe está internada no hospital e precisa de uma outra cirurgia. É sério.”

O resto foi confusão, no sentido menos Sessão-da-Tarde possível. Agora me vejo sentado, escrevendo aqui e esperando algo que não se pode esperar em nenhum dia do ano. A não ser hoje. Um milagre de Natal.

Clichê? Granted. Mas não quero ser original. Só quero minha mãe bem e junto de mim.

Sexta-feira, treze de Agosto do último ano da década.

Se eu fosse supersticioso, diria que hoje coisas acontecerão. Não coisas quaisquer, como acontecem todo o dia, coisas terríveis, coisas que mal podemos enrolar nossa mente ao redor. São em dias como esse que, por causa de algum tipo de alinhamento planetar, os Great Old Ones que aguardam dormindo sob os oceanos poderiam acordar, como nos lembra o velho ditado: “Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn”, que, traduzido toscamente quer dizer algo como “Em seu lar em R’lyeh, Cthulu, morto, aguarda sonhando” ou “Em seu lar em R’lyeh, Cthulu morto espera seu sonho”. Um dos dois.

Mas não sou supersticioso. Sou um homem que não tenta responder todas as perguntas sobre o Universo com qualquer coisa que me vem à mente, não senhor. Sou um homem científico, que busca explicar o Universo através da observação de acontecimentos no mundo ao meu redor. Sei que fico inspiradamente taciturno quando, à noite, chove e que me perco em sonho-lúcido quando troveja. Sei que queria estar mais perto do imaginário de Nietzsche, e que gosto de acordar para olhos claros olhando de volta para mim. Mesmo sabendo todas essas coisas e muitas outras, sequer posso começar a imaginar o que pode vir a acontecer no dia de hoje.

Por isso que a única ciência em que acredito é a Física Quântica.  Enquanto todas as outras dizem “impossível”, ela diz “improvável”.

E “improvável” é tudo em que preciso acreditar.

Pois então que me encontro aqui, esperando o download de um episódio de uma série que foi ao ar nos Estados Unidos há pouco mais de duas horas. Enquanto tento encontrar uma posição menos desconfortável no sofá, ao som  baixo de Steph Fraser e do ventilador no teto, me ocorre o quão inacreditável algo parecido soaria há há dez anos atrás.

Logo então me ocorre que isso não seria inacreditável há dez anos. Talvez há vinte, ou trinta até, mas não dez.

Anyway, o mundo tem cada vez mais encolhido, e é importante nos tocarmos disso. É importante tocarmos uns aos outros através dessas linhas virtuais que foram criadas pelo desejo humano de ser mais, ver mais, e explodir mais seus inimigos sem que eles percebam.

A música trocou para “Prelude”, by Globus. E por falar em música, eu decidi atualizar meu iPod hoje. As mesmas músicas sempre cansam.

O que cansa também é ler sobre a vida pouco interessante de uma pessoa que você não conhece. Mas para você não perder a viagem, vou tentar lhe contar uma história. Provavelmente não será muito boa, nem muito comprida, mas ela será. E isso é mais do que muita história por aí. Here goes:

“Era uma vez uma menina que morava no mato com seu avô. Seus pais haviam morrido há muito tempo num acidente de carro, lá por perto da Vila Nova. Ela não sabia quem ou quantos outros estavam envolvidos, e para ela pouco importava: seu avô era a soma de pai e mãe que ela precisava. O Seu Gutierrez, como os homems do arado o chamavam, era teimoso e ligeiro. Andava por aí com um daqueles chapéus de pano acinzentados, que ninguém mais usa em lugar algum exceto nos lugares em que alguém como o Seu Gutierrez mora.

A menina aprendeu tudo que sabia com o Seu Gutierrez. Ela tinha cabelos castanhos claros, cheirava à manhãs de primavera e tinha onze anos de idade. Logo faria doze, e sabia que quando isso acontecesse o Seu Gutierrez iria ensina-la como dirigir um trator. Ela queria muito aprender a dirigir, e um trator era melhor que nada. Ela achava que se conseguisse dirigir o trator direitinho, poderia convencer o Seu Gutierrez a deixa-la guiar o carro quando fossem ao centro. Ela não aguentava mais ir e voltar a pé como fazia pelo menos duas vezes por semana. Num desses dias, uma terça-feira para ser exato, ela voltava carregando lâmpadas para trocar a da sala, da varanda e guardar mais umas quantas. Eram lâmpadas demais para uma menina pequena como Laura, e ela estava fazendo seu melhor para que elas não caíssem e quebrassem.”

Nesse momento, eu deveria escrever o miolo da história. Aquilo que prendereia você por horas aqui, lendo um conto. Mas possivelmente por preguiça mental, ou falta de inspiração, não poderei faze-lo. Por enquanto terá que bastar dizer que chuva começará a cair, e um deslizamento ocorrerá. Ela correrá, pedirá ajuda para estranhos passando e isso não dará muito certo. Saiba também que ela conseguirá sair disso razoavelmente ilesa, com um corte no joelho direito e uma mordida num dos braços (sinta-se a vontade para escolher em qual). Ela fará tudo isso carregando as lâmpadas, e ao chegar perto da casa, estará orgulhosa de si, encherá o peito de ar e preparar-se-a para entrar em triunfo.

Este será o momento em que ela encontrará Seu Gutierrez morto na varanda. Ela então deixará sua até então preciosa carga cair e quebrar.

E a varanda ficará presa em escuridão.

Antes de Dormir

Publicado: maio 27, 2009 em general insanity, sleep deprivation

Queria beber da fonte das paixões dos homens que seguem e nunca voltam para trás. Daqueles que seguem seu rumo não importa o quê, descabendo a si e a todos no seu processo de exploração. Da mostra honesta do ser não mais escondido, do ser maculado pela miséria do coração, agora azedo e malvado, tonto e mutilado, caído do peito e tentando bater.

Também me servia só não ter insônia.

Because they do.

Não quero ser dono da gargalhada mais alta. Ou o cara que nunca quer estar sozinho. Não quero ser aquele que você liga às quatro da manhã só porque vou ser a única pessoa acordada. Não quero ter que preencher silêncios que me assustam porque dizem a verdade.

O sol me cega. Fiquei acordado de novo.

Não quero que minha história acabe assim.