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Chovia ironicamente naquela noite em Barro Seco. Bruno bateu a porta quando entrou no apartamento e chutou a primeira coisa disponível, que, para sua infelicidade, era uma conjunto de banco e mesa de metal cromado. A dor do contato veloz e nada gracioso de seu pé contra o conjunto, que permaneceu imóvel após o incidente, apenas adicionou à raiva.

De orgulho ferido e extremidade latejando, Bruno colocou o elepê do filme “Áses Indomáveis” a todo volume e  foi para o banheiro, removendo peças de roupa. Quando chegou ao box estava despido de quase tudo: tempo, regras, pensamentos, ficaram para fora das cortinas. Quando água começou a correr, só restava Bruno, e nada mais.

Oh, e sua dor no pé, é claro.

Welcome

Publicado: agosto 19, 2010 em general insanity, sketches

Você está morrendo.

Sua vida diminui de valor a cada instante que passa. Tic-tac – não serás mais um advogado – tic-tac – não escreverás uma valsa – tic-tac – não a beijou quando poderia. A partir do momento em que podemos fazer escolhas, matamos sonhos com a facilidade – e velocidade – de um estalar de dedos.

Plac.

Plac.

Plac.

Por isso que existem lugares como esse. Lugares onde um estalar dos dedos é só o começo. O começo da parte mais definitiva de sua vida. O começo do fim.

Bem-vindo à Barro Seco. Onde os sonhos vêm para morrer.

Mas não imediatamente.

Antigo discurso de boas-vindas do prefeito de Barro Seco.

Here I Am

Publicado: julho 16, 2010 em general insanity, sketches
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Então, cá estou.

Depois de meses sem tocar o teclado com o intuito de escrever, nada mais adequado do que escrever aqui primeiro. Não faço porque busco adequação, não. Faço porque sinto necessário, porque sinto algo que me faz querer correr, gritar, dançar como um gato em escadarias. Sinto-me vivo invés de sobrevivo. Sinto-me livre e com medo. Sinto que escrevi a palavra sinto o suficiente para décadas de escrituras.

Mas sinto.

Portanto, aqui vai:

“A História de Barro-Seco

Barro-Seco é uma cidade no meio do estado. É dona de frio montanhoso no inverno, calor diabólico no verão e de umidade olímpica o ano inteiro. A cidade não é muito grande,  mas tem o que a maioria do pessoal precisa: uma praça, na frente da igreja, ladeada pela fruteira do Seu Mello e o Clube Parnaense. Esses lugares, mais os estabelecimentos comerciais ao redor, formam o centro da cidade. Mas o que torna Barro-Seco interessante não é a praça ou a fruteira, tampouco a igreja ou o Clube Parnaense. O que torna Barro-Seco um lugar único no estado são seus habitantes ilustres. Você vê, Barro-Seco é o lugar onde sonhos vêm para morrer.”

Por enquanto é isso. Mas embora os sonhos morram em Barro-Seco, os sonhos de Barro-Seco vivem. Onde?

Na minha cabeça. E, agora, aqui.

Pois então que me encontro aqui, esperando o download de um episódio de uma série que foi ao ar nos Estados Unidos há pouco mais de duas horas. Enquanto tento encontrar uma posição menos desconfortável no sofá, ao som  baixo de Steph Fraser e do ventilador no teto, me ocorre o quão inacreditável algo parecido soaria há há dez anos atrás.

Logo então me ocorre que isso não seria inacreditável há dez anos. Talvez há vinte, ou trinta até, mas não dez.

Anyway, o mundo tem cada vez mais encolhido, e é importante nos tocarmos disso. É importante tocarmos uns aos outros através dessas linhas virtuais que foram criadas pelo desejo humano de ser mais, ver mais, e explodir mais seus inimigos sem que eles percebam.

A música trocou para “Prelude”, by Globus. E por falar em música, eu decidi atualizar meu iPod hoje. As mesmas músicas sempre cansam.

O que cansa também é ler sobre a vida pouco interessante de uma pessoa que você não conhece. Mas para você não perder a viagem, vou tentar lhe contar uma história. Provavelmente não será muito boa, nem muito comprida, mas ela será. E isso é mais do que muita história por aí. Here goes:

“Era uma vez uma menina que morava no mato com seu avô. Seus pais haviam morrido há muito tempo num acidente de carro, lá por perto da Vila Nova. Ela não sabia quem ou quantos outros estavam envolvidos, e para ela pouco importava: seu avô era a soma de pai e mãe que ela precisava. O Seu Gutierrez, como os homems do arado o chamavam, era teimoso e ligeiro. Andava por aí com um daqueles chapéus de pano acinzentados, que ninguém mais usa em lugar algum exceto nos lugares em que alguém como o Seu Gutierrez mora.

A menina aprendeu tudo que sabia com o Seu Gutierrez. Ela tinha cabelos castanhos claros, cheirava à manhãs de primavera e tinha onze anos de idade. Logo faria doze, e sabia que quando isso acontecesse o Seu Gutierrez iria ensina-la como dirigir um trator. Ela queria muito aprender a dirigir, e um trator era melhor que nada. Ela achava que se conseguisse dirigir o trator direitinho, poderia convencer o Seu Gutierrez a deixa-la guiar o carro quando fossem ao centro. Ela não aguentava mais ir e voltar a pé como fazia pelo menos duas vezes por semana. Num desses dias, uma terça-feira para ser exato, ela voltava carregando lâmpadas para trocar a da sala, da varanda e guardar mais umas quantas. Eram lâmpadas demais para uma menina pequena como Laura, e ela estava fazendo seu melhor para que elas não caíssem e quebrassem.”

Nesse momento, eu deveria escrever o miolo da história. Aquilo que prendereia você por horas aqui, lendo um conto. Mas possivelmente por preguiça mental, ou falta de inspiração, não poderei faze-lo. Por enquanto terá que bastar dizer que chuva começará a cair, e um deslizamento ocorrerá. Ela correrá, pedirá ajuda para estranhos passando e isso não dará muito certo. Saiba também que ela conseguirá sair disso razoavelmente ilesa, com um corte no joelho direito e uma mordida num dos braços (sinta-se a vontade para escolher em qual). Ela fará tudo isso carregando as lâmpadas, e ao chegar perto da casa, estará orgulhosa de si, encherá o peito de ar e preparar-se-a para entrar em triunfo.

Este será o momento em que ela encontrará Seu Gutierrez morto na varanda. Ela então deixará sua até então preciosa carga cair e quebrar.

E a varanda ficará presa em escuridão.

Pés de Vaga-Lume

Publicado: junho 17, 2009 em general insanity, sketches

Laurana era uma garota forte. Olhos claros, cabelos loiros, sorriso triste e olhos invencíveis. Morava na parte leste de uma grande fazenda, num casebre que havia pertencido ao seu avô, Salazar Torres. Salazar havia sido um caseiro, um caminhoneiro, um soldado e um jogador inveterado. Salazar também tinha sido a coisa mais próxima de pais que Laurana viria a conhecer. Não sabia por onde os seus de verdade andavam, se é que ainda andavam. Eles podiam estar rastejando. Na verdade podiam estar parados de barriga para cima numa caixa de madeira fechada e não faria diferença nenhuma para ela. Laurana estava preocupada com outras coisas, e estas bem mais relevantes e imediatas. Por exemplo, como cumprir as últimas instruções do seu avô.

Eu passei mais ou menos uma semana pensando em escrever dois contos: um sobre uma crise de meia-idade meio cômica, como mote a fragilidade da self-image; o outro sobre uma visão fantasiosa do racismo/exclusão social. E, depois de passar um dia inteiro rolando para lá e para cá com uma dor-de-cabeça infernal derivada de um ataque agudo de sinusite e lutando contra problemas de… copyright com o microsoft office, no momento em que eu finalmente consigo parar para escrever… me vem esse conto cujo fragmento acabei de postar ali em cima.

Vai entender.

Because they do.

Há algo na imaginação humana que simplesmente me comove.

Certas palavras, escritas ou pronunciadas. Certas cenas, descritas nas folhas ásperas e aconchegantes  de um livro, ou emitidas por canhões de luz e reforçadas pelo som vívido que saem das suas caixas. É a água correndo. São os cães uivando. São as lágrimas que caem. É o sofrimento humano.

Uma cena dessas é como um cheiro. Traz memórias e sentimentos que nem sabia que haviam dentro de mim. Corro com astronautas ensandecidos lutando e caindo a milhões de quilômetros por hora em um espaço infindável, em busca de lugar para chamar de lar. Acompanho irmãos tentando salvar o mundo do que existe na sombra entre o dia e a noite, e tentando salvar a eles mesmos no processo. Venho ver e vivo a vida não-vivida por mim e por outros, mas experimentada por todos nós naquele momento. Imaginada, ali e, agora, aqui.

Estes são os quadros e esculturas do novo mundo. Estas são as virtudes do meu universo. São parte da vida que escolho viver todo o dia. Mas só parte dela.

Tem toda aquela parte que não foi imaginada, mas é humana. E simplesmente me comove.