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It’s Alive

Publicado: setembro 30, 2014 em general insanity, real life

Hoje participei de um seminário de literatura, e foi fantástico como eu não lembrava que seria. Foi um sopro de ar nas brasas pacientes da minha imaginação literária. Não começou um incêndio, não. Mas as peças que antes estavam cinzas e quebradiças ousaram se alaranjar novamente. Elas aguardarão, esperando mais sopros e movimentos. Mais uma chance de iluminar através das cinzas do que já queimou antes.

Logo, chamas rugirão novamente.

Estava assistindo um filme peculiar, chamado Bunraku. Ele é uma história razoavelmente familiar, contada de uma maneira baseada no que primeiro me parecia quadrinhos, mas não exatamente e , ao investigar, se provou não ser. A direção de arte do filme é baseada na tradição homônima (文楽) japonesa, que é uma espécie de teatro de fantoches. O visual é bastante estilizado, e tenho quase certeza que os diálogos foram tirados de um sonho que tive uma vez mas não lembro mais. O que me levou a devanear sobre isso: sonhos perdidos.

É uma noção incômoda, como uma música que soa similar a algo que você conhece intimamente, mas fundamentalmente dissonante aos seus ouvidos. Não consigo evitar o pensamento de que é como esquecer parte do que se foi, tanto um passado abandonado quanto um abandono de si passado.

E, no entanto, hão aqueles sonhos que não passam, não mudam, e que são tão difíceis visualizar quanto aqueles que não são mais carregados: tão inefáveis quanto o cheiro de um primeiro amor, ou o som de um coração partido às 3:42am.

Inesquecíveis, mesmo que nunca tenham sido como você se lembra deles.

A Christmas Miracle

Publicado: dezembro 25, 2010 em real life, sleep deprivation

Não é um evento muito comum, mas não sei o que dizer. Decidi escrever para distrair-me dos acontecimentos ao meu redor. Não queria fazer mistério, mas sinto que tensão é a força da boa escrita e embora a minha ainda precise de trabalho para chegar lá, algumas boas práticas tem que ser adotadas desde cedo.

Na verdade não sei se é cedo. Talvez seja cedo para certas coisas, como aprender a escrever, e tarde para outras, como recuperar tempo desperdiçado ou idéias despedaçadas. Hoje, o calor inconfundível de Porto Alegre me manteve acordado por horas durante a madrugada e após uma ou duas delas de sono o telefone insistiu em tocar. Despertado e contrariado tomei o aparelho em mãos e li um número que não me era familiar, adicionando suspense à ligação. Do outro lado da linha qualquer coisa poderia estar a espera: uma notificação de que o apocalipse zumbítico finalmente começou e que era hora de levantar armas como sempre imaginamos que faríamos; ou quem sabe um policial preso em um prédio dominado por ladrões passando-se por terroristas que ligou para meu número ao acaso e precisa que eu ajude-o a salvar as pessoas tomadas como reféns; ou ainda mais interessante, algúem me ligando e dizendo que nunca mais precisaria trabalhar em minha vida, pois dinheiro seria depositado regularmente em minha conta bancária simplesmente porque sim.

Mas o que estava do outro lado era uma voz forte e antiga, formando palavras que forçaram-se sobre meu estado vazio de espírito e  exerceram poder irresistível sobre mim. A voz dizia, não nestas palavras:

“Thiago, não irás jogar hoje. Tua mãe está internada no hospital e precisa de uma outra cirurgia. É sério.”

O resto foi confusão, no sentido menos Sessão-da-Tarde possível. Agora me vejo sentado, escrevendo aqui e esperando algo que não se pode esperar em nenhum dia do ano. A não ser hoje. Um milagre de Natal.

Clichê? Granted. Mas não quero ser original. Só quero minha mãe bem e junto de mim.

Chovia ironicamente naquela noite em Barro Seco. Bruno bateu a porta quando entrou no apartamento e chutou a primeira coisa disponível, que, para sua infelicidade, era uma conjunto de banco e mesa de metal cromado. A dor do contato veloz e nada gracioso de seu pé contra o conjunto, que permaneceu imóvel após o incidente, apenas adicionou à raiva.

De orgulho ferido e extremidade latejando, Bruno colocou o elepê do filme “Áses Indomáveis” a todo volume e  foi para o banheiro, removendo peças de roupa. Quando chegou ao box estava despido de quase tudo: tempo, regras, pensamentos, ficaram para fora das cortinas. Quando água começou a correr, só restava Bruno, e nada mais.

Oh, e sua dor no pé, é claro.

Galáxias de Você

Publicado: setembro 3, 2010 em general insanity, real life

Sou um contador de histórias desde muito pequeno.

E antes que alguém avance com o pensamento que tal sentença quer dizer que eu mentia muito quando criança, bem, eu fiz isso, mas não é isso que quero dizer. Quero dizer que desde muito cedo imaginava ficções, histórias que se passavam em lugares parecidos com os que me cercavam e outros que só podiam ser imaginados.

Enquanto crescia, minha imaginação era exercitada constantemente. A portaria do prédio nos fundos do meu era uma nave espacial, lutei contra alienígenas vulneráveis à correntes de cobre, sonhava em participar de super-sentais. Eu tinha sete anos de idade.

Em uma época misturava elementos de maneiras absurdas: personagens de quadrinhos com sistemas de role-playing games, vagando por mundos conectados por mágica, onde as pessoas bebiam ouro e usavam moedas feitas d’água como dinheiro. Eu tinha dez anos de idade.

A fogueira do tempo queimou, e nos anos que seguiram nunca deixei o absurdo abandonar a minha mente. Aprendi a criar personagens que pareciam pessoas, a construir mundos onde estes personagens viviam,  conceber deuses e contar histórias envolvendo estes elementos. E então as histórias começaram a fazer sentido, e não só para mim: para as pessoas em volta.

Eram histórias simples, bobas talvez, mas falavam de coisas que eu e estas pessoas consideravam importantes. Falavam de bravura e camaradagem, de vitórias e derrotas, de estar preparado para situações inusitadas como ataques de zumbis ou a descoberta de que o mundo que conhecemos é a fachada que esconde horrores melhor ignorados.

Essas histórias podiam ser pouco – ou nada – interessantes para você, mas isso também é importante. A visão de cada pessoa sobre o mundo cria um novo universo que ocupa o mesmo lugar, e que é exatamente igual e absolutamente diferente ao mesmo tempo. Isto me ensinou a contar histórias diferentes para pessoas diferentes, me ensinou a misturar estrelas que só existiam dentro de uma pessoa, e de outra e de outra, e transforma-las numa galáxia, onde todos podíamos enxergar o brilho que antes só existia dentro de nós.

Desde então criei cosmogonias e tramas complexas, com camadas e mais camadas, misturando tudo que podia conseguir justificar. Achei consistência e razão, do caos criando ordem. E estas histórias moldaram o meu e o modo de outros de (vi)ver o mundo.

Através de histórias, descobrimos as pessoas que gostaríamos de ser:

Aquelas quais histórias choramos ao contar.

You Never Know

Publicado: setembro 1, 2010 em general insanity, real life

Pessoas são estranhas.

Qualificamos com esse adjetivo todas as que não conhecemos. O conceito de conhecer pode ser ampliado, dependendo das idiossincracias de um indíviduo específico. Para José, por exemplo, todos aqueles que não são de sua cidade natal, Monte Branco, são estranhos. Tudo que ele sabe sobre aquelas pessoas é que não são do mesmo lugar que ele e, para José, isto basta.

Para Camila, esposa de José, Antonio Fagundes não é um estranho. Ele não é do mesmo lugar que ela ou José, mas ela sente que o conhece, afinal, eles tem se visto por anos – ou pelo menos ela o tem. Ela viu Antonio ser um executivo corrupto, vários galãs, e até mesmo Deus. Muitas dessas vezes ele tinha nomes diferentes, e histórias diferentes. Mesmo quando usando o nome de Antonio, ele só existia enquanto a televisão estava ligada e, para Camila, isto basta.

Chances são que, para você, a grande maioria das pessoas que você vê na rua são estranhas. Não sabe quem são, ou porque são. Não sabe para onde vão, ou porque não. E pouco se importa, afinal,você sabe que não sabe quem são. E para você, isto basta.

Um dia, alguém se aproximou de você, e de José, de Camila e de muitos outros. Alguém que era estranho (e portanto, não o Antonio), mas por um motivo ou por outro, nenhum dos três pôde se livrar deste indivíduo. Logo, um detalhe, um olhar, um pedaço imensurável de suas vidas foi trocado, e a estranheza se foi. A partir daquele momento eram sagazes, insuportáveis, excitantes, sujas, ruivas, grandes, mas não estranhas. Aquela característica inexplicável, insondável se perdera e nada mais restara a não ser lugares-comuns.

Porém, algumas pessoas viajam além destes lugares-tão-visitados. Por escolha ou circunstância, são trocados mais do que sorrisos de meia-vontade e frases prontas. Conversas fora-de-hora e permutações sem-sentido encontram ouvidos atentos. Laços se formam mudando para sempre a dinâmica entre elas.

E, é nesse momento, quando conhece alguém de verdade, quando consegue discernir que o que o que está sendo mostrado é só uma projeção na tela, e finalmente vira-se em direção ao projetor, você nota que existe algo – alguém – ali que é completamente diferente do que você viu até agora.

Tão diferente que chega a ser estranho.

De uns tempos para cá, tenho aprendido várias lições interessantes. Dentre elas, “nunca entre em guerra contra um siciliano” e “cozinhar com sono é perigoso” merecem menção especial. Dentre as talvez-não-tão-interessantes, mas provavelmente-mais-relevantes-de-serem-discutidas-com-outras-pessoas, está “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas”, e quando digo “coisas” é óbvio que quero dizer “pessoas”.

Nos anos que inevitavelmente me trouxeram à este momento vivi séries de acontecimentos, acontecimentos em série, acontecimentos em séries e acontecimentos mais sérios. As pessoas do meu – chamaremos assim – círculo social variaram em conteúdo, contexto, sociabilidade e objetivos. Provavelmente, sendo uma pessoa razoavelmente razoável, devo ter experimentado mudanças similares de humor, tom e timbre. Mas existe sempre uma matriz fundamental ào qual todos eles (e eu) revertem. Como diz um doutor especialmente canalha, ninguém muda de verdade. O que conseguimos alterar são as percepções das outras pessoas sobre nós e a nossa percepção sobre as coisas. E isso é importante, porque sem isso não poderíamos colocar em prática as lições que aprendemos. O que importa que é que saibamos quem somos, e sejamos quem queiramos ser. De posse desse conhecimento, podemos encontrar o que precisamos para tornar nossa vida um pouco melhor. Podemos inclusive encontrar espaço para escapar da confortável rotina do claro e do conhecido. Podemos nos entregar à noite. Podemos atrasar um post de aniversário and get away with it.

Podemos nos apaixonar de novo.

Feliz aniversário Rachael e Dan. Mesmo.