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Estava assistindo um filme peculiar, chamado Bunraku. Ele é uma história razoavelmente familiar, contada de uma maneira baseada no que primeiro me parecia quadrinhos, mas não exatamente e , ao investigar, se provou não ser. A direção de arte do filme é baseada na tradição homônima (文楽) japonesa, que é uma espécie de teatro de fantoches. O visual é bastante estilizado, e tenho quase certeza que os diálogos foram tirados de um sonho que tive uma vez mas não lembro mais. O que me levou a devanear sobre isso: sonhos perdidos.

É uma noção incômoda, como uma música que soa similar a algo que você conhece intimamente, mas fundamentalmente dissonante aos seus ouvidos. Não consigo evitar o pensamento de que é como esquecer parte do que se foi, tanto um passado abandonado quanto um abandono de si passado.

E, no entanto, hão aqueles sonhos que não passam, não mudam, e que são tão difíceis visualizar quanto aqueles que não são mais carregados: tão inefáveis quanto o cheiro de um primeiro amor, ou o som de um coração partido às 3:42am.

Inesquecíveis, mesmo que nunca tenham sido como você se lembra deles.

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Because they do.

Às vezes me pego pensando em coisas que não deveriam ser tão importantes assim. Em palavras que proferi, em movimentos do outro lado da vitrine, em músicas de décadas passadas que reverberam como se recém tocadas pela primeira vez. E talvez seja exatamente isso que ressoa: o primeiro toque, inesquecível, indelével, delicioso. Talvez seja esse o sentido da lembrança. Talvez seja como os fios que compõe uma música. Tecidos de padrões e fábrica variados, tingidos das cores de como sentimos aquele momento, no paradoxo da absurda proximidade e melancólica distância.

E então eu desperto, aturdido pela realidade não menos indelével e deliciosa. Feita de tons amenos que serão exarcebados pela memória e de gritantes destoares que serão sussurrados tons-de-cinza, tão suaves que mal saberemos que eles estão lá.

É assim a (minha) vida. Cheia de tons e meios-tons, com os fios d’ouro e prata, adornando os tecidos aveludados do céus.

Prontos para serem jogados aos teus pés.

Há algo na imaginação humana que simplesmente me comove.

Certas palavras, escritas ou pronunciadas. Certas cenas, descritas nas folhas ásperas e aconchegantes  de um livro, ou emitidas por canhões de luz e reforçadas pelo som vívido que saem das suas caixas. É a água correndo. São os cães uivando. São as lágrimas que caem. É o sofrimento humano.

Uma cena dessas é como um cheiro. Traz memórias e sentimentos que nem sabia que haviam dentro de mim. Corro com astronautas ensandecidos lutando e caindo a milhões de quilômetros por hora em um espaço infindável, em busca de lugar para chamar de lar. Acompanho irmãos tentando salvar o mundo do que existe na sombra entre o dia e a noite, e tentando salvar a eles mesmos no processo. Venho ver e vivo a vida não-vivida por mim e por outros, mas experimentada por todos nós naquele momento. Imaginada, ali e, agora, aqui.

Estes são os quadros e esculturas do novo mundo. Estas são as virtudes do meu universo. São parte da vida que escolho viver todo o dia. Mas só parte dela.

Tem toda aquela parte que não foi imaginada, mas é humana. E simplesmente me comove.

Just a Line

Publicado: fevereiro 29, 2008 em general insanity, movies

Ouvi essa frase em um filme:

“Eggs have no business dancing with stones.”

Dead on.

I Know Who Killed Me

Publicado: janeiro 21, 2008 em movies

Se você pretende ver o filme com o título acima, aconselho que pare de ler agora. Spoilers seguirão.

Você foi avisado(a).

“I Know Who Killed Me” supostamente conta a história de uma garota que é sequestrada, mutilada, encontrada e então, uma vez acordada, afirma categoricamente que não é a garota que desapareceu.

Eu juro. Sério. Eu não inventei isso. É mais ou menos isso que o trailer a sinopse do filme explicam. O fato é que a história é realmente mais ou menos isso. Aliás, acho que esse é o problema. O filme é mais ou menos um monte de coisas. É mais ou menos sobrenatural. É mais ou menos gore. É mais ou menos um drama. É mais ou menos um thriller. E é mais ou menos uma desculpa para a Lindsay Lohan se vestir como uma stripper (eu sei, é um conceito estranho) e ser paga por isso.

O filme tem pontos interessantes though. Fica evidente que houve um cuidado especial com as cores. O azul e o vermelho são utilizados para criar uma plástica muito peculiar em vários momentos. Trabalho criativo muito… bem, criativo. Tão criativo que, com exceção do motivo de ficar bonito, eu não consigo ver uma razão para as modificações de tons utilizadas através do filme. Claro, isso pode ser apenas uma gigantesca insensibilidade da minha parte, e se for isso eu peço aqui desculpas já para o sr. Svertson (embora eu acredite pouco provável que ele vá um dia saber da minha injustiça para com ele). A trilha sonora é boa. Boa no estilo “músicas boas”, como “Massive Attack” (eu juro que tem um Massive Attack ali) e não no sentido de ambientação. Mas no que a música e trabalho de cor falham em proporcionar, a montagem e fotografia oferecem abrigo ao espectador. São como fagulhas de genialidade que oferecem uma boa dose de ansiedade, suspense e alguns pequenos sustos. Algumas das sequências são, infelizmente, um tanto confusas, mas se você é daquelas pessoas que pode apenas se encostar no sofá e curtir uma boa composição de tensão e alguns planos se conectando de maneira um tanto onírica, essas sequências podem ser bastante proveitosas.

A atuação da srta Lohan não acrescenta muito, exceto pela excelente cena em que ela apresenta sua performance como dançarina exótica num clube de cavalheiros. Ela consegue deixar transparecer a essência do personagem, todo o drama dela através daquela roupa colada e minúscula, enquanto se enrosca e desenrosca do poste de metal. Se você é um fã da srta Lohan (sabe-se lá exatamente por que), é uma cena imperdível.

O filme tem início, meio e fim bem definidos, embora ele não se resolva de uma maneira satisfatória, pelo menos para mim. Mas eu sou um chato, como vocês já devem estar carecas de saber. O melhor adjetivo que posso achar para a atuação de todos é “genérica”, a trama parece tirada de um episódio da “Twilight Zone”, com planos bonitos e interessante sequências oníricas. Ótimo para ser assistido em uma noite tempestuosa em que você não esteja muito disposto a se esforçar mas deseja ter seus receptores visuais e auditivos estimulados.

Ah, eu sei. Esse texto não contém realmente spoilers. Mas eu pensei que escrever que tinha ia fazer com que mais pessoas lessem até o final na esperança de descobrir do que diabos esse filme fala de verdade. Mas para descobrir isso, vão ter que gastar as quase duas horas que tive que gastar.

“I Know Who Killed Me” foi escrito por Jeff Hammond, e dirigido por Chris Svertson. Com Lindsay Lohan, Rodney Rowland, Paula Marshall, Julia Ormond e Neil McDonough. USA, 105 min. Rated R.

The Prestige

Publicado: janeiro 15, 2008 em general insanity, movies

“…if you could fool them, even for a second, then you can make them wonder…”

Esse fragmento de texto, no contexto apresentado, me parece deveras relevante. Em uma tradução livre “se você puder engana-los, mesmo que apenas por um segundo, então poderá fazer com que pensem”. Esse pedaço ilustre de inspiração jogado no meio da dança entre dois homens obcecados pela arte faz total e completo sentido. Isso de que eles falam é a essência da arte. O engano, a mentira, a promessa feita de que seja o que você estiver vendo, ela não é ordinária, comum, cotidiana como sua vida o é, por mais extraordinária que seja. E não é um feito fácil.

Admiro com fervor aqueles que conseguem. Aqueles que sentem tão intensamente o derradeiro aproximar da estagnação da humanidade, que sentem a iminência do fim da imaginação, do esquecimento de como chegamos até aqui e porque somos o que somos e como somos. Eles sabem. Conjuram suas máscaras e vestem-na todos os dias para proteger o que existe de mais ingênuo dentro deles, e revelam o que está por trás daquelas fendas apenas quando todo o resto da humanidade têm certeza que não pode ser verdade. Mostrar a verdade quando todos esperam não ve-la é a arte que define o ser humano. Define suas lealdades, seus ideais, seus sonhos e esperanças. É o fogo que Prometeus roubou dos deuses e deu para nós e que incendeia a tudo e a todos.

Desde que queiramos deixar queimar.