You Never Know

Publicado: setembro 1, 2010 em general insanity, real life

Pessoas são estranhas.

Qualificamos com esse adjetivo todas as que não conhecemos. O conceito de conhecer pode ser ampliado, dependendo das idiossincracias de um indíviduo específico. Para José, por exemplo, todos aqueles que não são de sua cidade natal, Monte Branco, são estranhos. Tudo que ele sabe sobre aquelas pessoas é que não são do mesmo lugar que ele e, para José, isto basta.

Para Camila, esposa de José, Antonio Fagundes não é um estranho. Ele não é do mesmo lugar que ela ou José, mas ela sente que o conhece, afinal, eles tem se visto por anos – ou pelo menos ela o tem. Ela viu Antonio ser um executivo corrupto, vários galãs, e até mesmo Deus. Muitas dessas vezes ele tinha nomes diferentes, e histórias diferentes. Mesmo quando usando o nome de Antonio, ele só existia enquanto a televisão estava ligada e, para Camila, isto basta.

Chances são que, para você, a grande maioria das pessoas que você vê na rua são estranhas. Não sabe quem são, ou porque são. Não sabe para onde vão, ou porque não. E pouco se importa, afinal,você sabe que não sabe quem são. E para você, isto basta.

Um dia, alguém se aproximou de você, e de José, de Camila e de muitos outros. Alguém que era estranho (e portanto, não o Antonio), mas por um motivo ou por outro, nenhum dos três pôde se livrar deste indivíduo. Logo, um detalhe, um olhar, um pedaço imensurável de suas vidas foi trocado, e a estranheza se foi. A partir daquele momento eram sagazes, insuportáveis, excitantes, sujas, ruivas, grandes, mas não estranhas. Aquela característica inexplicável, insondável se perdera e nada mais restara a não ser lugares-comuns.

Porém, algumas pessoas viajam além destes lugares-tão-visitados. Por escolha ou circunstância, são trocados mais do que sorrisos de meia-vontade e frases prontas. Conversas fora-de-hora e permutações sem-sentido encontram ouvidos atentos. Laços se formam mudando para sempre a dinâmica entre elas.

E, é nesse momento, quando conhece alguém de verdade, quando consegue discernir que o que o que está sendo mostrado é só uma projeção na tela, e finalmente vira-se em direção ao projetor, você nota que existe algo – alguém – ali que é completamente diferente do que você viu até agora.

Tão diferente que chega a ser estranho.

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comentários
  1. disse:

    mito da caverna do platão. com a assustadora projeção os olhos não se voltam para a fonte.
    e por que se voltariam se os olhos veem e um algo sente? num sentido mais fenomenológico da realidade a projeção se torna realidade. surpreemder-se é uma arte de quem ousa duvidar da realidade e desdobrá-la.
    teus textos sempre têm algo de estranho. nesse caso se equivale a dizer que para mim são sempre literários.

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