Prelude

Publicado: dezembro 26, 2007 em general insanity

“O que ele poderia dizer que fizesse sentido para eles? Poderia dizer que o amor era, acima da tudo, uma causa comum, uma experiência compartilhada? Era esse o cimento vital que unia tudo, não era? Poderia falar para eles como se sentia por estar com eles ali, naquela noite, enquanto lá fora o mundo louco girava em torno de um imenso sol, que caía através de um espaço maior ainda, através de imensidões de espaço, talvez indo em direção ou se afastando de Alguma Coisa? Poderia dizer que compartilhavam aquela viagem a um bilhão de quilômetros por hora. Nós lutamos juntos contra a noite. E começamos a lutar por pequenas causas. Por que adoramos aquele menino num campo de verão, enfrentando o céu com sua pipa? Porque os nossos dedos queimam com a linha quente chamuscando nossas mãos. Por que amamos aquela menina que vemos da janela de um trem, curvada sobre um poço na roça? Porque a nossa língua se lembra do sabor da água fria em algum meio-dia perdido no passado. Por que choramos ao ver estranhos mortos à beira de uma estrada? Porque eles nos lembram amigos que não vemos há muitos anos. Por que rimos quando palhaços são atingidos por tortas? Porque provamos o seu recheio, saboreamos a vida. Por que amar a mulher que é a sua esposa? Porque ela respira o ar de um mundo que conhecemos; portanto, amamos aquele nariz. Os ouvidos dela ouvem a música que poderíamos cantar pela noite inteira, e assim amamos aqueles ouvidos. Os olhos dela brilham com as cores das estações, e assim amamos aqueles olhos. Sua língua conhece o sabor do marmelo, do pêssego, da hortelã e da lima, e assim adoramos ouvi-la falando. E porque a carne dela conhece o calor, o frio e a aflição conhecemos o fogo, o gelo e a dor. Experiências compartilhadas uma vez e para sempre. Bilhões de texturas formigando. Corte um dos sentidos, e a vida será instantaneamente dividida ao meio. Amamos o que conhecemos, amamos aquilo que somos. A experiência comum da boca, dos olhos, dos ouvidos, da língua, da mão, do nariz, da carne, do coração e da alma.

Mas como dizer isso?”

É.

Como?

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comentários
  1. A Confeiteira disse:

    Um simples “eu te amo” já é um bom começo… E às vezes, um olhar diz tudo isso.

  2. V. disse:

    é simplesmente lindo isso…

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