Lie to Me

Publicado: dezembro 11, 2007 em general insanity

“O trabalho enobrece o homem.” Eu concordo com seja lá quem for que veio com essa. Desde que, claro, quando ele tenha dito “enobrece” ele tenha querido dizer “aborrece, entedia, chateia”. Claro, nem todo o trabalho é entediante. Mas até mesmo alguns trabalhos não-entediantes se tornam entediantes depois que viram rotina.

Então, estava eu aborrecido no trabalho (já que a novidade da garota muito bem aparentada que está trabalhando aqui temporariamente já havia passado) quando eu decidi, por impulso, abrir um livro qualquer. Na página, havia apenas o trecho de texto abaixo.

Então voltei para casa e escrevi: Meia-noite. A chuva castiga a janela. Não era meia-noite. Não chovia.

Fiquei encantado com a simplicidade das frases e de como elas gritavam volumes. A arte de mentir, de inventar, de criar coisas que não estão lá. Arte. Com intenção. Sem utilidade. Com alma. A necessidade de expressar e de comunicar qualquer coisa que esteja guardada dentro de si, misturada com seja o que for que existe logo ali fora.

Creio que essa seja uma das maiores dificuldades do artista. A de mentir para ele mesmo o suficiente para que passe a acreditar em sua própria mentira. Acredito ser fundamental essa farsa pessoal, esse embuste narcisista, já que boa parte da força de uma peça está no investimento do artista para com ela e, vamos convir, quem consegue investir boa parte de si em algo que não acredita? O auto-enganar não é um truque novo, nem muito nobre da humanidade. Desde sempre homens tiveram a capacidade de ignorar ou mentir para si com o intuito de evitar tornarem-se o que, em sua bússola moral, seria apontado como “errado”. Boa parte da virtude de muitos, nada mais era do que pura mentira. Ilusão. Não proposital, mas com um propósito. E por isso a jornada do artista é tão complicada. Ele sabe que é mentira. Ele sabe que está tentando se enganar. E isso faz da batalha uma muito mais perigosa. Porém, essa não é uma batalha em prol da mentira e da desvirtude. É uma luta pelo auto-conhecimento. Pela expansão da mente e dos limites. É a exaltação de tudo aquilo que veio antes, está, e virá depois.

Isso sim, enobrece o homem. E não tem nada de entediante.

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comentários
  1. A Confeiteira disse:

    PS: Só podia ser por impulso… hehehehe…

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