Neverending Stories

A primeira história que eu lembro escrever foi sobre um homem sentado no banco de um ônibus. Ele sentava ali, absorto em pensamentos, perdido em solidão. Aos doze anos de idade, foi sobre solidão que decidi escrever. Lembro da reação da professora e dos colegas. Eles ficaram parados, fitando como se fosse alguma coisa alienígena. Foi interessante, acho. Para eles e para mim.

Depois de todo esse tempo, fico pensando “o que eu entendia sobre solidão naquela época?”. A resposta não me parece simples. Embora queira responder simplesmente “nada, eu era uma criança”, não me soa justo assumir que crianças não sabem sobre a solidão.

Não é simples ser criança. Eu lembro de certas coisas, de momentos duros, de problemas sérios, de medos que sentiam reais o suficiente, mesmo se não fossem. Acho que tenho um fascínio pela solidão. Quero ficar sozinho, ser deixado em paz, mas tenho medo de conseguir o que quero. Não sei o que quero. Não sei se sei o que sei, e o que sei parece tão falso às vezes que nem meus amigos mais próximos acreditam. Não acreditam em certas coisas que faço, que ninguém mais faria porque é idiota. Não sou um idiota. Pelo menos não acredito ser. Sou argumentativo, arrogante, self-righteous. Sou um idiota glorificado. E não sou nada mau.

Mas ainda não sou um canalha sublimado.

Feliz Aniversário, Rachael e Dan.

Published in: on October 4, 2008 at 3:43 am Comments (1)

Cold and Broken

coldandbroken01

Há um balanço por aí que ainda não consegui encontrar. Não o brinquedo, feito de uma tábua onde a pessoa senta e ladeada por um par de correntes que sobem até alcançar uma haste de mental horizontal e balança-se tão suavemente ou não quanto tal pessoa desejar. Estou falando de equilíbrio físico, emocional, intelectual e existencial.

Imagino como pode ser difícil encontrar tal balanço. Não consigo sequer começar a imaginar como é alcança-lo, porque significaria um equilíbrio em todas as coisas. No assentar do pó sobre os móveis da casa, no observar a água escorrer pelo lado de fora da janela em um dia especialmente cinza e chuvoso, no esperar um bolo, cheirando a delícias tamanhas que vivemos duas vidas só no espaço entre o inspirar e o abrir os olhos novamente. A vida pode ser sobre essa busca, sobre a jornada finita do ser humano atrás esse balanço.

Mas digresso. Na verdade, não foi sobre isso que vim falar. Só vim aqui falar sobre um frio e partido aleluia.

“I heard there was a secret chord
that David played and it pleased the Lord
but you don’t really care for music, do you
well it goes like this: the fourth, the fifth
the minor fall and the major lift
the baffled king composing hallelujah

well your faith was strong but you needed proof
you saw her bathing on the roof
her beauty and the moonlight overthrew you
she tied you to her kitchen chair
she broke your throne and she cut your hair
and from your lips she drew the hallelujah

baby i’ve been here before
I’ve seen this room and I’ve walked this floor
I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
but love is not a victory march
it’s a cold and it’s a broken hallelujah

well there was a time when you let me know
what’s really going on below
but now you never show that to me do you
but remember when i moved in you
and the holy dove was moving too
and every breath we drew was hallelujah

well, maybe there’s a god above
but all I’ve ever learned from love
was how to shoot somebody who outdrew you
it’s not a cry that you hear at night
it’s not somebody who’s seen the light
it’s a cold and it’s a broken hallelujah

hallelujah”

Uma hora dessas eu entendo o que quis dizer com tudo isso. Sintam-se livres para faze-lo antes de mim.

Published in: on May 16, 2008 at 6:26 am Comments (0)

Life That is Not What it is

Há algo na imaginação humana que simplesmente me comove.

Certas palavras, escritas ou pronunciadas. Certas cenas, descritas nas folhas ásperas e aconchegantes  de um livro, ou emitidas por canhões de luz e reforçadas pelo som vívido que saem das suas caixas. É a água correndo. São os cães uivando. São as lágrimas que caem. É o sofrimento humano.

Uma cena dessas é como um cheiro. Traz memórias e sentimentos que nem sabia que haviam dentro de mim. Corro com astronautas ensandecidos lutando e caindo a milhões de quilômetros por hora em um espaço infindável, em busca de lugar para chamar de lar. Acompanho irmãos tentando salvar o mundo do que existe na sombra entre o dia e a noite, e tentando salvar a eles mesmos no processo. Venho ver e vivo a vida não-vivida por mim e por outros, mas experimentada por todos nós naquele momento. Imaginada, ali e, agora, aqui.

Estes são os quadros e esculturas do novo mundo. Estas são as virtudes do meu universo. São parte da vida que escolho viver todo o dia. Mas só parte dela.

Tem toda aquela parte que não foi imaginada, mas é humana. E simplesmente me comove.

Force Cage

Tenho várias coisas na minha cabeça.

Começaram como imagens perdidas. Uma aqui, outra lá e depois acolá. Com o tempo, elas foram misturando-se e organizando-se em algo razoavelmente compreensível, pelo menos metaforicamente falando. Mais tarde, quando a poeira começa a se assentar, as imagens, já ordenadas, tentavam fazer sentido umas das outras. Transformaram-se em idéias, noções e sentimentos. Estes então, agora dotados de uma recém-encontrada esperança de um sentido existencial, começaram a trabalhar. Correram para um lado e para o outro até cansar, e descobriram que tinham poderes quase-cósmicos semi-fenomenais, mas estavam presos em uma lampadazinha minúscula. Foi aí que um deles apareceu e constatou que, para cumprir seu destino cármico, teriam que dar um jeito de sair de lá.

E é o que estão tentando até agora.

Published in: on May 5, 2008 at 7:10 am Comments (1)

Brilliant

“…

O senhor é tão jovem, tem diante de si todo o começo, e eu gostaria de lhe pedir da melhor maneira que posso, meu caro, para ter paciência em relação a tudo que não está resolvido em seu coração. Peço-lhe que tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas.

O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam de lá pra cá, envolvidos com coisas que pareciam grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres. E um dia, ao percebermos que suas ocupações são mesquinhas, que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida, por que não olhar para eles como uma criança observa algo de estranho, a partir da profundeza do próprio mundo, da amplitude da própria solidão, que é ela mesma um trabalho, um cargo e uma profissão?

O senhor não percebe como tudo o que acontece é sempre de novo um começo?

É mais ou menos isso. Mais pra mais.

Published in: on April 30, 2008 at 9:43 am Comments (3)

April Falls

E Abril passa. Não despedaça como muitos já fizeram, mas se arrasta de mansinho, ladeando o caminho e se espreguiçando de montão. É madrugada, estou atordoado com sono e gentilezas. Não estou acostumado com gentilezas. São gostosas e graves, como notas de um baixo bem baixo.

São laços estranhos, estreitos, envolventes, que se formam de maneira inusitada e irreal. São fortes como a fantasia e saborosos como algodão-doce.

E eu gosto de algodão-doce.

Published in: on April 23, 2008 at 6:43 am Comments (1)

The Masks that Wear Us

maskreduced01We all wear masks. They can be worn out of love and the desire to remain close to those around us; to spare them from the complicated reality of our frayed psyches. We trade honesty for companionship and in the process never truly know the hearts closest to us.”

Será que só tenho o pavor indescritível de que vista uma máscara há tanto tempo que esteja completamente convencido de que seja meu verdadeiro rosto? Ou será exatamente o problema oposto? Poderia ser.

Uma pessoa, que um dia foi muito importante, me disse algo que agora me lembro como “nenhuma relação sobrevive a honestidade“. Talvez essa pessoa tenha razão. Ser honesto, ou vestir a máscara da honestidade, nunca me levou a lugar algum que quis chegar. Todos em volta de mim sempre falam de jogos, de subjetividades de coisas que não dissemos mas deixamos a entender. Das sutilezas do pensar, do falar, dos gestos que significam coisas que não podemos esperar compreender mas mesmo assim tentamos e falhamos. É mesmo possível que sejamos todos tão quebrados e partidos ao meio que simplesmente não possamos acreditar no melhor das pessoas? Que as pessoas realmente são aquilo que dizem e que querem ser?

Não. Não podemos. Sempre temos que pensar o pior. Temos que mante-los a distância além do braço. Criamos desculpas para que se afastem. Para que nos afastemos. Temos que testa-los. Temos que força-los a provar para nós que não irão fazer conosco mais uma vez o que todo o resto fez. Temos que ser quentes e frios e altos e baixos e tristes e catárticos, um atrás do outro, sem aviso, sem gestos, sem palavras que possam explicar. Queremos gritar para sermos deixados em paz para que não sejamos. Queremos que nos queiram como queremos que nos queiram ou de jeito algum. Queremos que sejam a soma de todos nossos medos, para que finalmente possamos manda-los embora e pensar solenemente conosco mesmos e saber que tínhamos razão o tempo todo. Que é melhor estarmos sozinhos do que com mais uma daquelas pessoas que sempre nos machucam do mesmo jeito.

Talvez seja essa a verdade. Talvez sejamos todos narcisistas perdidos em nossos próprios universos de medo, dor e insegurança, e que a maior de todas a batalha seja conseguir nadar contra a corrente e colocar os olhos para fora desse universo e olhar não para o espelho, mas através dele. Talvez assim, finalmente, paremos de enxergar o reflexo de tudo que existe de pior em nós nas outras pessoas.

E finalmente possamos sentir os corações que estão perto dos nossos.

Published in: on March 10, 2008 at 4:39 am Comments (6)

Beneath

Enough said.

Published in: on February 22, 2008 at 2:18 pm Comments (4)

All Eternal Things

Forças negras sustentam o universo. Forças centrífugas, centrípetas, fortes, tenazes. Emanações de um lado sinistro e desolado que nem todos os cientistas do mundo poderiam vir a ver. Eles vêem com os olhos mas não registram as imagens em seus corações. Escrevem em cadernos pautados, telas congeladas, quadros esverdeados e em pedaços de papel perdidos na noite insone daquele que sabe que não deve. Dever. Lealdade. Palavras significativas de significados poderosos. Amizade. Tontura. Esquecimento.

A falta do toque. De amar e ser amado.

Feliz ano novo.

Published in: on January 1, 2008 at 4:58 am Comments (1)

Every Night Is Another Story

É real? Faz diferença?

 Essas duas perguntas são constantes. Nos espaços de tempo em que me pego pensando, entre um ler, um olhar, um trocar e um roubar, penso nisso. O que faço que é real, que importa? Então penso em histórias que falam de momentos desafiantes, momentos beirando a grandeza e o abismo. Me emociono com elas. Sinto com elas. Sinto falta. Sinto falta de uns de estonteante sucesso e de outros de sublime falha. Me sinto assustado, desde os quatro anos de idade. Assustado demais para caminhar no desconhecido de que tanto falo sobre. Assustado demais para deixar para trás seja o que for que me segura. Devagar. Sempre cuidadoso. Sempre perdido e divagando. Sempre atrás sem olhar à frente.

Às vezes cruzo com uma história, uma pessoa, um personagem que fala de coisas como essa. Fala de solidão, de força, de fraternidade, de coragem, de fazer a escolha difícil porque é a escolha certa. Difícil porque ver o certo… ver o certo é uma epifania de proporções homéricas, e fazer o certo é uma exercício de vontade hercúlea.

O homem que imagino nas entrelinhas dos momentos, no espaço por entre o palpitar da história, é uma mistura de poeta e herói. Isso não é nada mal.

Isso é. E faz.

Published in: on November 19, 2007 at 4:12 am Comments (8)