Life That is Not What it is

Há algo na imaginação humana que simplesmente me comove.

Certas palavras, escritas ou pronunciadas. Certas cenas, descritas nas folhas ásperas e aconchegantes  de um livro, ou emitidas por canhões de luz e reforçadas pelo som vívido que saem das suas caixas. É a água correndo. São os cães uivando. São as lágrimas que caem. É o sofrimento humano.

Uma cena dessas é como um cheiro. Traz memórias e sentimentos que nem sabia que haviam dentro de mim. Corro com astronautas ensandecidos lutando e caindo a milhões de quilômetros por hora em um espaço infindável, em busca de lugar para chamar de lar. Acompanho irmãos tentando salvar o mundo do que existe na sombra entre o dia e a noite, e tentando salvar a eles mesmos no processo. Venho ver e vivo a vida não-vivida por mim e por outros, mas experimentada por todos nós naquele momento. Imaginada, ali e, agora, aqui.

Estes são os quadros e esculturas do novo mundo. Estas são as virtudes do meu universo. São parte da vida que escolho viver todo o dia. Mas só parte dela.

Tem toda aquela parte que não foi imaginada, mas é humana. E simplesmente me comove.

Force Cage

Tenho várias coisas na minha cabeça.

Começaram como imagens perdidas. Uma aqui, outra lá e depois acolá. Com o tempo, elas foram misturando-se e organizando-se em algo razoavelmente compreensível, pelo menos metaforicamente falando. Mais tarde, quando a poeira começa a se assentar, as imagens, já ordenadas, tentavam fazer sentido umas das outras. Transformaram-se em idéias, noções e sentimentos. Estes então, agora dotados de uma recém-encontrada esperança de um sentido existencial, começaram a trabalhar. Correram para um lado e para o outro até cansar, e descobriram que tinham poderes quase-cósmicos semi-fenomenais, mas estavam presos em uma lampadazinha minúscula. Foi aí que um deles apareceu e constatou que, para cumprir seu destino cármico, teriam que dar um jeito de sair de lá.

E é o que estão tentando até agora.

Published in: on May 5, 2008 at 7:10 am Comments (1)

Not my Valentine

Ventos estranhos sopram nas terras que nos cercam. Um relâmpago triste com a cor de mil verões perdidos corre por entre as nuvens em busca de um lugar para descansar.

Nos teus olhos molhados.
Na tua boca incalável.
No soprar do teu canto.
No delirar do teu coração que, entre todos os outros, colheu o trovão adormecido.
E acendeu o mundo com ele.

Published in: on February 14, 2008 at 9:23 pm Comments (4)

Misshapen Chaos of Well Seeming Forms

Sentado numa cadeira de mármore, corro os céus com minha imaginação. Ondas passadas com crinas vermelhas retornam trazendo risada, fúria e outras coisas mais que não consigo explicar. Enxergo borrões adiante, mas eles não podem me dizer para onde ir. Quanto mais tento fazer sentido das imagens que explodem na lareira menos elas deixam cantar. Elas não querem que eu tente entender a razão. Que eu esqueça a razão! Querem que me jogue ao fogo e me entregue á inevitabilidade da vida. As vozes na minha cabeça exigem que eu viva!

Loucura.

Published in: on December 10, 2007 at 1:07 pm Comments (1)

Until It Sleeps

Longos dias se passaram entre um escrito e outro. A vontade de escrever permanece a mesma, mas a saída, o escape, o colocar das letras no cristal se tornaram ausentes. A culpa pertence à mim e à mais ninguém. O pensar torna-se menor, mais intenso, girando ao redor do cerne que sou, como elétrons procurando outros próximos, se agregando, se tornando diferentes e propositados. Sem controle numa fusão impromptu de sonhos e realidade.

 Eu acordo ao lado do meu monstro de pelúcia. Atento e calado, ele me observa a cada instante em julgamento e é gentil o suficiente para guarda-lo para si, pelo menos até que o dia chegue. Os raios de sol sopram para longe a clareza da noite e trazem a confusão da manhã. Lento. Meio. Esquecido. Detalhes do dionísio contra o apolíneo. O mesclar das infinitas possibilidades em oposição à uma vida limitada, exposta à uma lente de aumento em exame. O ato de saber traz a necessidade de cada vez mais saber mas nunca a envidrecida certeza de não saber.

Quando a noite chega mais uma vez, o incerto se torna certo. A esfomeada luz do dia abandona os cantos do céu e o luar cai em gotas nas ruas da vida. O efêmero se torna real. O impossível tira-me para dançar e damos voltas e mais voltas ao redor do vento do imaginar.

Imaginando como a vida é. Através dos meus olhos semi-cerrados forrados de tolas esperanças.

Ou através dos seus.

Published in: on November 18, 2007 at 2:47 am Comments (2)

Tiny Dancer

Há menos de um mês, em uma dessas noites sem-fim, me vi escrevendo o trecho abaixo.

Acho que estou preso em uma dança ensaiada vezes demais.

Eu abro a aquarela e despejo angústia sobre as cores do mundo e as misturo até que não sejam mais o que eram e voltem a ser a mesma coisa que sempre as torno. Cores pálidas, ecos perdidos de gritos direcionados ao espaço onde nada espera a não ser um único olho silencioso de porcelana.

Soluço. Brinco. Volto-me para o escárnio e tranco-me dentro dessa armadura irredutível de ânsias e sonhos mal-formados. Esticando-me tentando atingir o salto perfeito sem sequer tentar pular.

Pro meu azar, meu inimigo não é o Universo-Criatura-Vilã.

É o próprio dançarino.

Oh me, sad hours seem long.”

Estava aqui, guardado.

Até agora.

Published in: on October 17, 2007 at 5:43 am Comments (1)

Grace of Air

Desço pela ladeira ouvindo as badaladas que marcam as horas da minha vida.

Um, dois, doze, dezoito, vinte e oito. Todas soam melhores do que as anteriores e ainda assim é difícil não sentir um salgado de saudade deixado para trás nas bordas dos sinos. Cada lágrima derramada, cada pedaço retorcido de um coração partido, cada momento ridículo e irredutível desenham os frisos no pedaço de metal e transformam-no de uma forma grande, pesada e desengonçada no mais gracioso instrumento que já ouvi.

São as horas da minha vida que estão gravadas ali. Todos os tons e intenções.

Toda a graça do meu mundo.

Published in: on October 11, 2007 at 7:47 am Comments (1)

Sursum Effing Corda

Eu comecei e terminei esse post umas cinco vezes. E tudo que escrevia era terrivelmente piegas. E mudava absolutamente de tom com cada palavra que passava na minha cabeça. Vídeos. Músicas, lindas músicas. Poemas. Livros. Cada uma dessas coisas me dizia como eu deveria escrever e o quê. Construções de sentimentos, eternizados pelo sentir vítreo de uma única pessoa, que se propagam de momento em momento numa etérea dança devastadora.

Minhas mãos dançam por sobre o teclado. Vão e voltam, apagam e reescrevem as letras muito mais rápido do que eu posso pensar nelas. Agora é uma corrida. Eu quero pensar no que vou escrever antes de fazê-lo mas essa batalha se foi. A ponta dos meus dedos tem texturas singulares que fazem voar pequenas fagulhas musicais cada vez que tocam no preto do plástico e no branco das letras. J. K. Q. P. Não há sentido. Mas há música. Na música está o sentido. O sentido é a própria música. Nada toca das caixas de som do computador mas minha alma incendeia com as notas da tela de cristal e do cursor rastejante. Corre. Voa. Desliza sinceramente e furiosamente rumo a catarse de uma história não escrita, fugaz, tênue e insistente em volta de mim. Não há como escapar. Não há porque escapar. É o sopro do espírito. É a fuga da banalidade. É o fervoroso dançar das estrelas por sobre uma toalha velha de feltro.

É o lugar onde todas as coisas que importam acontecem.

Published in: on October 10, 2007 at 6:14 am Comments (1)

Wet Dreams

I am awash in this torrent of lament that tries to drown everyone around me. That drags them down to this shallow ocean of confusion and mishaps. I am tormented by the sorrow when I’m asleep, but it vanishes when I’m awake.

All that is left is this empty shell of a dream.”

Foi mais ou menos isso que me veio a mente enquanto eu puxava meu colchão do quarto para a sala.

Tu vê.

Published in: on September 24, 2007 at 7:39 am Comments (0)

Impulse

Ian andava de cabeça baixa. Diziam que era tudo culpa dele. Ele sabia que não. Como poderia ser? Não tudo. Era uma noção infantil. De pessoas que não estavam lá. Que não viram o que ele viu. Ian lembra daquele dia como se fosse ontem. Como se fosse agora.

Ian jamais se esqueceria do que ele viu no Abismo.

Published in: on September 21, 2007 at 6:30 pm Comments (0)