Prelude

“O que ele poderia dizer que fizesse sentido para eles? Poderia dizer que o amor era, acima da tudo, uma causa comum, uma experiência compartilhada? Era esse o cimento vital que unia tudo, não era? Poderia falar para eles como se sentia por estar com eles ali, naquela noite, enquanto lá fora o mundo louco girava em torno de um imenso sol, que caía através de um espaço maior ainda, através de imensidões de espaço, talvez indo em direção ou se afastando de Alguma Coisa? Poderia dizer que compartilhavam aquela viagem a um bilhão de quilômetros por hora. Nós lutamos juntos contra a noite. E começamos a lutar por pequenas causas. Por que adoramos aquele menino num campo de verão, enfrentando o céu com sua pipa? Porque os nossos dedos queimam com a linha quente chamuscando nossas mãos. Por que amamos aquela menina que vemos da janela de um trem, curvada sobre um poço na roça? Porque a nossa língua se lembra do sabor da água fria em algum meio-dia perdido no passado. Por que choramos ao ver estranhos mortos à beira de uma estrada? Porque eles nos lembram amigos que não vemos há muitos anos. Por que rimos quando palhaços são atingidos por tortas? Porque provamos o seu recheio, saboreamos a vida. Por que amar a mulher que é a sua esposa? Porque ela respira o ar de um mundo que conhecemos; portanto, amamos aquele nariz. Os ouvidos dela ouvem a música que poderíamos cantar pela noite inteira, e assim amamos aqueles ouvidos. Os olhos dela brilham com as cores das estações, e assim amamos aqueles olhos. Sua língua conhece o sabor do marmelo, do pêssego, da hortelã e da lima, e assim adoramos ouvi-la falando. E porque a carne dela conhece o calor, o frio e a aflição conhecemos o fogo, o gelo e a dor. Experiências compartilhadas uma vez e para sempre. Bilhões de texturas formigando. Corte um dos sentidos, e a vida será instantaneamente dividida ao meio. Amamos o que conhecemos, amamos aquilo que somos. A experiência comum da boca, dos olhos, dos ouvidos, da língua, da mão, do nariz, da carne, do coração e da alma.

Mas como dizer isso?”

É.

Como?

Published in: on December 26, 2007 at 4:05 am Comments (2)

Tonight Tonight

Amigos.

A maioria das pessoas, uma vez perguntada se tem amigos, diria instantaneamente que sim, sem parar para pensar no que acabara de ser perguntado de fato. E fato é que o que a maioria das pessoas chama de “amigos“, seriam melhor classificados como “conhecidos” ou “amigos de conveniência“.

Não é nada embaraçoso, ou sequer imoral. Não. Todos temos desses. São aquelas pessoas às quais nutrimos um certo sentimento de bem-querer, meio genérico, e gostamos de passar algumas horas na companhia delas enquanto não temos nada melhor para fazer. São aquelas pessoas às quais você ouve as histórias com certa desatenção, e que conta seus causos casuais. São as pessoas que você almoça com, trabalha com, estuda com, vive com, ou convive.

O problema com essas pessoas é que elas não conhecem você muito bem, e nem você as conhece. Vocês não trocam histórias tristes de anos atrás, de afetos, de desalentos. Não lhes confiam segredos com parcimônia e guarda os dela como se fosse os seus. Não conseguimos fazer isso com trivialidade. Não entregamos-nos assim. Precisamos ser conquistados, seduzidos por algo mais que parcos “bom dias”, sorrisos perfeitos e perguntas desinteressadas de como estamos. Acontece devagarinho, em um dia depois do outro. Numa noite de outono nada especial, cheia de frivolidades e cheiro de café. Sob uma chuva torrencial, fugindo do ônibus que tenta encharcar a todos na calçada. Numa palavra escapada e num olhar solidário dançando com o nosso. Com essas pequenas maravilhas despimos, camada por camada, essas pessoas e nós mesmos do mundo. Das coisas que dissemos que eram. Das coisas que nos contaram que somos. Da imagem enevoada que passamos  ao universo numa ingênua crença de que se mentirmos alto o suficiente, ninguém vai nos notar aqui e não teremos que chorar jamais.

Tolice.

O universo é bem mais esperto que nós. E com a graça grotesca que só a humanidade possue, às vezes nós os encontramos. Guardiões de segredos e portadores de chaves. Raros. Caros.

Amigos.

 Dedicado àqueles que saem do seu caminho para se encontrar com o meu. Aprecio vocês muito mais do que jamais poderei demonstrar com meu jeito alienado, afastado, abduzido.

Published in: on December 20, 2007 at 2:41 am Comments (4)

Lie to Me

“O trabalho enobrece o homem.” Eu concordo com seja lá quem for que veio com essa. Desde que, claro, quando ele tenha dito “enobrece” ele tenha querido dizer “aborrece, entedia, chateia”. Claro, nem todo o trabalho é entediante. Mas até mesmo alguns trabalhos não-entediantes se tornam entediantes depois que viram rotina.

Então, estava eu aborrecido no trabalho (já que a novidade da garota muito bem aparentada que está trabalhando aqui temporariamente já havia passado) quando eu decidi, por impulso, abrir um livro qualquer. Na página, havia apenas o trecho de texto abaixo.

Então voltei para casa e escrevi: Meia-noite. A chuva castiga a janela. Não era meia-noite. Não chovia.

Fiquei encantado com a simplicidade das frases e de como elas gritavam volumes. A arte de mentir, de inventar, de criar coisas que não estão lá. Arte. Com intenção. Sem utilidade. Com alma. A necessidade de expressar e de comunicar qualquer coisa que esteja guardada dentro de si, misturada com seja o que for que existe logo ali fora.

Creio que essa seja uma das maiores dificuldades do artista. A de mentir para ele mesmo o suficiente para que passe a acreditar em sua própria mentira. Acredito ser fundamental essa farsa pessoal, esse embuste narcisista, já que boa parte da força de uma peça está no investimento do artista para com ela e, vamos convir, quem consegue investir boa parte de si em algo que não acredita? O auto-enganar não é um truque novo, nem muito nobre da humanidade. Desde sempre homens tiveram a capacidade de ignorar ou mentir para si com o intuito de evitar tornarem-se o que, em sua bússola moral, seria apontado como “errado”. Boa parte da virtude de muitos, nada mais era do que pura mentira. Ilusão. Não proposital, mas com um propósito. E por isso a jornada do artista é tão complicada. Ele sabe que é mentira. Ele sabe que está tentando se enganar. E isso faz da batalha uma muito mais perigosa. Porém, essa não é uma batalha em prol da mentira e da desvirtude. É uma luta pelo auto-conhecimento. Pela expansão da mente e dos limites. É a exaltação de tudo aquilo que veio antes, está, e virá depois.

Isso sim, enobrece o homem. E não tem nada de entediante.

Published in: on December 11, 2007 at 1:01 pm Comments (2)

Burst

Bom dia.

É uma honra estar aqui mais uma vez, entre tão nobres colegas e companheiros de viagem através da densa floresta das palavras. Verdadeiros amigos, compartilhando os silêncios inadúlteros. Compartilhando o calor do ouro bailarino, dançando sobre a funesta madeira ardente.

 Adjetivar não é para qualquer um. É complicado dizer um “e aí gente, massa estar aqui na oficina de literatura com vocês de novo” de maneira tão prolixa. Agora, de onde eu tirei a fogueira é que não sei.

Mesmo.

Published in: on at 2:24 am Comments (1)

Misshapen Chaos of Well Seeming Forms

Sentado numa cadeira de mármore, corro os céus com minha imaginação. Ondas passadas com crinas vermelhas retornam trazendo risada, fúria e outras coisas mais que não consigo explicar. Enxergo borrões adiante, mas eles não podem me dizer para onde ir. Quanto mais tento fazer sentido das imagens que explodem na lareira menos elas deixam cantar. Elas não querem que eu tente entender a razão. Que eu esqueça a razão! Querem que me jogue ao fogo e me entregue á inevitabilidade da vida. As vozes na minha cabeça exigem que eu viva!

Loucura.

Published in: on December 10, 2007 at 1:07 pm Comments (1)

Circular Trap

Depois de uma noite, ou manhã, de sono perturbada e indescansada chegou o momento que a falta de paciência pelo ficar caindo em sono leve e um despertar débil ganhou força suficiente para forçar um levantar. Uma vez fora dos domínios do colchão, lento e esfomeado, me vi novamente vítima dos hábitos medíocres que me seguram no lugar. Tenho fome, mas não há nada.

Não sei quando escrevi isso aqui. Mas diz horrores.

Pelo menos para mim.

Published in: on December 9, 2007 at 11:35 pm Comments (2)