Carry On My Wayward Son

Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas.

Ou alguma coisa assim.

Esse é um ditado francês (de acordo com o professor Charles Xavier) que fala sobre a inevitabilidade da história e sobre inabilidade humana de mudar. Quando uso a palavra “humana” aqui, me refiro à humanidade, à (in)capacidade dela de mudar, de fazer escolhas diferentes. Não que todas as coisas aconteçam iguaizinhas ao que aconteceram antes, decididamente não em um estilo poético tipo “All of this has happened before. All of this will happen again.“, mas em um esquema mais “The years passed, mankind became stupider at a frightening rate. Some had high hopes the genetic engineering would correct this trend in evolution, but sadly the greatest minds and resources where focused on conquering hair loss and prolonging erections. Traduzindo em miúdos para quem não tem saco para traduzir sozinho, a humanidade gasta tempo demais olhando para o lado errado. E agora, não é só a humanidade como um todo.

As pessoas, como indivíduos, também passam tempo demais olhando para o lado errado. Para o vizinho. Para o que não tem. A multidão vai a loucura, os dias voam e as pessoas continuam sempre querendo mais. De acordo com um filósofo (ou o Batman, não sei qual dos dois) o desejo é, ao mesmo tempo, o responsável pelas maiores conquistas e mais catastróficas besteiras do homem. Tá, ele não disse assim, desse jeito, mas esse é o espírito da coisa. Esse filósofo curtiu a idéia do homem abolir o desejo, abrir mão dessa história de querer mais sempre. As pessoas não levaram ele muito a sério, obviamente. As pessoas… desejam o desejo. A conquista é uma consequência direta do desejo (alguns diriam que às vezes da necessidade, mas eu classificaria “necessidade” como “tanto desejar que poderia vir a falecer se não o suprir”). É uma conquista muito, mas muito gostosa do desejo. Poucas coisas existem que tão satisfatórias quanto realizar um desejo. Se é que elas existem.

E é aí que vem a pegadinha. O problema com o desejo é que ele não muda e não acaba. Assim sendo, através das eras, homens e mulheres desejam sempre as mesmas coisas, over and over and over again. Como num carrossel sombrio e confuso, todos giramos lado a lado, às vezes cruzando caminhos mas sempre envoltos em nossos próprios desejares. Tentar escapar disso é uma ousadia fantástica e, de acordo com o tal filósofo, o caminho para a verdadeira felicidade.

Se a verdadeira felicidade é simplesmente existir, completamente sem desejos, eu devo dizer que a felicidade é um bocado vazia.

Ainda bem que não acredito nisso.

Published in: on November 26, 2007 at 8:12 pm Comments (2)

Every Night Is Another Story

É real? Faz diferença?

 Essas duas perguntas são constantes. Nos espaços de tempo em que me pego pensando, entre um ler, um olhar, um trocar e um roubar, penso nisso. O que faço que é real, que importa? Então penso em histórias que falam de momentos desafiantes, momentos beirando a grandeza e o abismo. Me emociono com elas. Sinto com elas. Sinto falta. Sinto falta de uns de estonteante sucesso e de outros de sublime falha. Me sinto assustado, desde os quatro anos de idade. Assustado demais para caminhar no desconhecido de que tanto falo sobre. Assustado demais para deixar para trás seja o que for que me segura. Devagar. Sempre cuidadoso. Sempre perdido e divagando. Sempre atrás sem olhar à frente.

Às vezes cruzo com uma história, uma pessoa, um personagem que fala de coisas como essa. Fala de solidão, de força, de fraternidade, de coragem, de fazer a escolha difícil porque é a escolha certa. Difícil porque ver o certo… ver o certo é uma epifania de proporções homéricas, e fazer o certo é uma exercício de vontade hercúlea.

O homem que imagino nas entrelinhas dos momentos, no espaço por entre o palpitar da história, é uma mistura de poeta e herói. Isso não é nada mal.

Isso é. E faz.

Published in: on November 19, 2007 at 4:12 am Comments (8)

Until It Sleeps

Longos dias se passaram entre um escrito e outro. A vontade de escrever permanece a mesma, mas a saída, o escape, o colocar das letras no cristal se tornaram ausentes. A culpa pertence à mim e à mais ninguém. O pensar torna-se menor, mais intenso, girando ao redor do cerne que sou, como elétrons procurando outros próximos, se agregando, se tornando diferentes e propositados. Sem controle numa fusão impromptu de sonhos e realidade.

 Eu acordo ao lado do meu monstro de pelúcia. Atento e calado, ele me observa a cada instante em julgamento e é gentil o suficiente para guarda-lo para si, pelo menos até que o dia chegue. Os raios de sol sopram para longe a clareza da noite e trazem a confusão da manhã. Lento. Meio. Esquecido. Detalhes do dionísio contra o apolíneo. O mesclar das infinitas possibilidades em oposição à uma vida limitada, exposta à uma lente de aumento em exame. O ato de saber traz a necessidade de cada vez mais saber mas nunca a envidrecida certeza de não saber.

Quando a noite chega mais uma vez, o incerto se torna certo. A esfomeada luz do dia abandona os cantos do céu e o luar cai em gotas nas ruas da vida. O efêmero se torna real. O impossível tira-me para dançar e damos voltas e mais voltas ao redor do vento do imaginar.

Imaginando como a vida é. Através dos meus olhos semi-cerrados forrados de tolas esperanças.

Ou através dos seus.

Published in: on November 18, 2007 at 2:47 am Comments (2)

Burn Me

Quem não conhece a história de Romeu e Julieta?

A história do maior amor de todos os tempos. A mais famosa. A mais poderosa. A mais perigosa. Essa história foi vítima de dezenas de adaptações através dos quase cinco séculos de sua existência. Filmes, livros, histórias-em-quadrinhos, e mais filmes. Só para a televisão e o cinema, já foram mais de cinquenta obras. Em português, uma tradução livre:

A história de dois amantes desditosos, que em sua sepultura o ódio dos pais depuseram, na morte venturosos.”

A história de dois amantes desgraçados por ódio injustificável que, ao morrer, conseguem a paz entre suas famílias. A história de opostos que se cruzam por destino. Aliás, é isso que a expressão original quer dizer. “Star-crossed” se refere ao destino e a inevitabilidade de duas pessoas cruzarem seus caminhos. Ela também se refere ao azar, já que a história de Romeu e Julieta acaba mal. E isso aconteceu antes, acontece agora e virá de acontecer de novo. Pessoas se cruzam nessa existência, mas porque alguém ou alguma coisa ao redor arranja um motivo estúpido para atrapalhar esse encontro, as pessoas vivem o inferno. O escritor de um blog inteligentemente começou um artigo que falava das dificuldades que um casal homossexual, um palestino e um israelense, estava passando para que primeiro pudesse morar no país do segundo com a abertura da peça de Shakespeare.

A história de Romeu e Julieta não foi inventada por ele. Alguns dizem que foi baseada em obras de Arthur Brooke e William Painter, que por sua vez teriam inspirado-se em uma série de contos de origem italiana. Mas eu suspeito que o Universo tenha inventado essa história muito antes. Essa é uma história que se origina no ódio, no preconceito, nos recôndidos mais obscuros da alma humana. Porém, dessa matéria negra foi esculpida, desenhada, escrita e recitada uma história de esperança. A história de Julieta e seu Romeu acabou em indubitável tragédia, mas de seu infeliz destino nasce uma lição que suas famílias entendem. Uma lição que algumas pessoas entendem.

Eu não tenho coragem de levantar-me e afirmar com toda a certeza do Universo que eu aprendi a lição que a história ensina. No meu imaginário se encontra apenas a lição que penso ter encontrado. E espero que esteja no imaginário de mais alguém.

Enfim, é uma tragédia. Não uma história de amor. Uma amiga acredita, ou pelo menos convenceu-me de que acredita, que Romeu e Julieta só são considerados os maiores amantes de todos os tempos porque eles não tiveram tempo para que a paixão deles se apagasse. O que ela sugere é que eles se tornariam frios e desatenciosos e menores do que eles eram, como acontecem com todos os grandes amores. E provavelmente a maioria das pessoas concordaria com ela se ela apresentasse tal argumento com a convicção que eu sei que ela tem. Mas em meu peito romântico e pós-moderno, que sofre dos males da ingenuidade, insegurança e da falta de músculos bem-desenvolvidos, mora um outro destino para os jovens amantes. Afinal, eles foram venturosos na morte.

 Eles ardem juntos. Através de toda a eternidade. Uma tragédia.

Para nós que não.

Published in: on November 10, 2007 at 5:04 am Comments (4)

Brain Freeze

Num desses dias peculiarmente quentes e frios do verão porto-alegrense, estava eu a conversar (leia-se trocar e-mails) com uma amiga sobre várias coisas. Entre tantos enviados, dos redigidos por mim, um fragmento específico me foi notório. Ele está reproduzido (quase que) fielmente abaixo:

…eu tenho é que ir comer alguma coisa, ligar para meu pai e tomar banho. Quase que necessariamente nessa ordem.

Agora, consigo ver o que você quer dizer. Ando mesmo meio deprê e lutando (bravamente espero) para impedir que isso me paralise de novo. Meu cérebro, idiota como só ele, não colabora a maior parte do tempo. Se eu pudesse desliga-lo por horas e horas a fio, certamente seria mais produtivo e feliz. Certas frases são clichês, mas pelos deuses maias da comunicação, como elas fazem sentido, e a frase a qual eu me refiro agora é ‘ignorance is bliss’. Eu queria ser mais tapadim e enxergar menos do mundo em volta de mim. Provalmente eu seria menos interessante e mais feliz.

Claro que se eu soubesse que um dia eu soube, e agora não mais, todo o alívio iria por água abaixo.

De volta à mesa de planejamento.”

Um dia a minha paralisia cerebral vai ser material de lendas. Só aguardem.

Published in: on November 5, 2007 at 8:43 pm Comments (0)