De uns tempos para cá, tenho aprendido várias lições interessantes. Dentre elas, “nunca entre em guerra contra um siciliano” e “cozinhar com sono é perigoso” merecem menção especial. Dentre as talvez-não-tão-interessantes, mas provavelmente-mais-relevantes-de-serem-discutidas-com-outras-pessoas, está “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas”, e quando digo “coisas” é óbvio que quero dizer “pessoas”.

Nos anos que inevitavelmente me trouxeram à este momento vivi séries de acontecimentos, acontecimentos em série, acontecimentos em séries e acontecimentos mais sérios. As pessoas do meu – chamaremos assim – círculo social variaram em conteúdo, contexto, sociabilidade e objetivos. Provavelmente, sendo uma pessoa razoavelmente razoável, devo ter experimentado mudanças similares de humor, tom e timbre. Mas existe sempre uma matriz fundamental ào qual todos eles (e eu) revertem. Como diz um doutor especialmente canalha, ninguém muda de verdade. O que conseguimos alterar são as percepções das outras pessoas sobre nós e a nossa percepção sobre as coisas. E isso é importante, porque sem isso não poderíamos colocar em prática as lições que aprendemos. O que importa que é que saibamos quem somos, e sejamos quem queiramos ser. De posse desse conhecimento, podemos encontrar o que precisamos para tornar nossa vida um pouco melhor. Podemos inclusive encontrar espaço para escapar da confortável rotina do claro e do conhecido. Podemos nos entregar à noite. Podemos atrasar um post de aniversário and get away with it.

Podemos nos apaixonar de novo.

Feliz aniversário Rachael e Dan. Mesmo.

Pés de Vaga-Lume

junho 17, 2009

Laurana era uma garota forte. Olhos claros, cabelos loiros, sorriso triste e olhos invencíveis. Morava na parte leste de uma grande fazenda, num casebre que havia pertencido ao seu avô, Salazar Torres. Salazar havia sido um caseiro, um caminhoneiro, um soldado e um jogador inveterado. Salazar também tinha sido a coisa mais próxima de pais que Laurana viria a conhecer. Não sabia por onde os seus de verdade andavam, se é que ainda andavam. Eles podiam estar rastejando. Na verdade podiam estar parados de barriga para cima numa caixa de madeira fechada e não faria diferença nenhuma para ela. Laurana estava preocupada com outras coisas, e estas bem mais relevantes e imediatas. Por exemplo, como cumprir as últimas instruções do seu avô.

Eu passei mais ou menos uma semana pensando em escrever dois contos: um sobre uma crise de meia-idade meio cômica, como mote a fragilidade da self-image; o outro sobre uma visão fantasiosa do racismo/exclusão social. E, depois de passar um dia inteiro rolando para lá e para cá com uma dor-de-cabeça infernal derivada de um ataque agudo de sinusite e lutando contra problemas de… copyright com o microsoft office, no momento em que eu finalmente consigo parar para escrever… me vem esse conto cujo fragmento acabei de postar ali em cima.

Vai entender.

Antes de Dormir

maio 27, 2009

Queria beber da fonte das paixões dos homens que seguem e nunca voltam para trás. Daqueles que seguem seu rumo não importa o quê, descabendo a si e a todos no seu processo de exploração. Da mostra honesta do ser não mais escondido, do ser maculado pela miséria do coração, agora azedo e malvado, tonto e mutilado, caído do peito e tentando bater.

Também me servia só não ter insônia.

Because they do.

Carrossel

maio 13, 2009

Feels like I’ve been riding a merry-go-round for years, and only new I realized that the scenario out here is always the same. Like I’ve been blinded, fooled and led happily to everyone else’s lives.

I forgot my own.
I forgot myself.
I forgot the drilling sound in my heart and in my head.
Misplacing hope.
Recurring dreams.
Dying for a chance to live.
And forfeiting them all at the same rate.

I live alone. And even if it isn’t true, it feels like it.

Between the Lines

fevereiro 14, 2009

É quase manhã. Seguro um copo vazio enquanto olho em direção à uma tela negra de televisão. Penso nas diferenças entre ler e ver. Penso nos sentimentos que são passados através da tinta, nas míriades nas mãos elevadas â potência da imaginação. Penso na real diferença, e se  as palavras “real” e “diferença” significam o que eu acho que significam, ou se entendi errado o conceito delas à muito tempo atrás. Também penso que alguém pode ter cometido esse erro muito antes de mim.

Antes disso, pensava noutras coisas, como no que diria no funeral de meu pai. Ou o que diria à minha avó na próxima vez que a visse. O que direi. Às duas. Direi que os amo? Que os amei? Sou só palavras, e um homem de palavras e não ações é como um jardim de ervas daninhas. Tudo que cresce ali é inútil e duvidoso.

Mentira. Não me sinto como um jardim inútil, tampouco um homem duvidoso. Sinto-me coberto de teias, cultivadas pela negligência de um menino que nunca viveu suas memórias: as inventou. Sinto me obcecado pelo fogo do coração dos homens. Sinto-me escravo do pulso do universo. Sinto me atrelado à arremedos.

Eu poderia viver entre as estrelas, e por escolha própria me contento em refletir seu brilho enquanto não estão prestando atenção. Não é vida. É uma peça de teatro não especialmente interessante e arrastada. É uma infância inteira em uma só tarde morna de domingo.

É quase manhã. Seguro um copo vazio enquanto olho em direção à uma tela negra de televisão.

Penso em vez de brilhar.

Blinds are Not the Night

fevereiro 13, 2009

Não quero ser dono da gargalhada mais alta. Ou o cara que nunca quer estar sozinho. Não quero ser aquele que você liga às quatro da manhã só porque vou ser a única pessoa acordada. Não quero ter que preencher silêncios que me assustam porque dizem a verdade.

O sol me cega. Fiquei acordado de novo.

Não quero que minha história acabe assim.

How They See You

janeiro 23, 2009

Às vezes nos esquecemos de nós mesmos. De quem somos. Do que podemos fazer. Ficamos presos nos nossos dias tombados, pequenos, labirintinos e ladrões de esperança. Mas embora pareça fundo, e às vezes seja mais fundo do que parece, acho que quando isso acontece, tudo que precisamos é que alguém nos lembre. Mais precisamente:

Do not let your fire go out, spark by irreplaceable spark, in the hopeless swamps of the approximate, the not-quite, the not-yet, the not at all. Do not let the hero in your soul perish, in lonely frustration for the life you deserved, but have never been able to reach. Check your road and the nature of your battle. The world you desired can be won.

It exists,

It is real,

Iit is possible,

It is yours.”

It is now.
Thanks for reminding me.

Mixtape

janeiro 12, 2009

Fumamos o dia em menos de três baforadas. Foram horas estranhas, cheias de incontáveis crepúsculos a medida em que a fumaça subia. Desenhava formas laterais na neve dos nossos pensamentos. Fúrias desciam sobre nós, com moiras, medusas, televisões perdidas e adoradas. Um momento de ternura, abafado pela decisão de viver em paz consigo mesmo. Sem risco. Sem lamúrias. Sem vida.

Nada a acrescentar no momento.

Not Supposed to Make Sense

janeiro 9, 2009

A medida em que os meses passam, a contagem de palavras escritas por mim diminui. A razão é clara para mim: tenho olhado menos para dentro.

Tudo que observo é externo, claro, mas até aí é só uma coisa que aconteceu ali fora e, a não ser que seja algo especialmente fantástico, não precisa ser descrito mais uma vez. O que escrevo é a minha interpretação daquilo ali de fora. A minha versão das coisas. Um pedaço do Meu Mundo®, e não do mundo partilhado por default. E isso só acontece razoavelmente bem com uma certa reflexão, e um reflexo. É isso: um reflexo. As escrituras aqui são um reflexo do mundo partilhado por default no Meu Mundo®. Então, se não olho para dentro desse lugar algumas vezes sardônico e quase sempre fantástico, a vontade de escrever simplesmente se vai, e não vai a lugar algum. Esvai.

Existem várias razões para a minha falta de apreciação pelo MM®, mas elas não são dignas de exploração (pelo menos não nesse post). O que importa  é que alguns estímulos externos ainda são poderosos suficientes para atravessar essa película de inércia que embala o MM®, como a que eu pretendo mencionar logo abaixo. O importante, however, não é o estímulo, mas sim o que você sente com ele.

Nesse caso, sinto o mundo fazer um pouco mais de sentido. No sentido de que não faz sentido nenhum claro.

I once dug a pit and filled it with clouds. Or was it clowns? Come to think of it, it began to smell. Must have been clowns. Clouds don’t smell: they taste of butter. And tears.”

Um excelente começo.